Biblioteca
do Espelho

Guia

Servitor: o que é, de onde vem e como trabalhar com um, do começo ao fim

Servitor: o que é, de onde vem e como trabalhar com um, do começo ao fim

Resposta curta

Servitor é uma forma-pensamento criada de propósito para uma única função, com nome, sigilo, prazo e encerramento. Diferente do sigilo comum, que se faz e se esquece, o servitor fica e recebe contato regular até a data marcada. A ideia de pensamento com forma própria vem da Teosofia (1901); o método, da magia do caos, a partir do fim dos anos 1970.

Este guia adapta e organiza um texto publicado no r/bruxaria por um praticante que o autorizou a ser usado aqui. O texto original, com a conversa da comunidade, está no Reddit. É um texto para quem está começando e exige algum conhecimento mínimo. Quem pratica há anos provavelmente não encontrará novidade, e esse nunca foi o objetivo.

O que é um servitor

Um servitor é uma forma-pensamento criada de propósito para uma função. O autor do texto original faz questão de separar o que é velho do que é novo, e vale repetir:

Ideia Origem
Pensamento com forma própria Teosofia. Thought-Forms (Forma-Pensamento), de Annie Besant e C. W. Leadbeater, Londres, 1901.
Tulpa Alexandra David-Néel, em Mystiques et magiciens du Thibet (1929). Ela adaptou a palavra tibetana sprul pa, algo próximo de “emanação”, e contou ter criado a figura de um monge que ganhou autonomia até ela precisar dissolvê-lo. O “tulpa” da internet de hoje, como companheiro mental, é outra coisa: nome tibetano com conceito ocidental.
Servitor como técnica, com função, sigilo e alimentação Magia do caos, a partir do fim dos anos 1970. O Liber Null, de Peter Carroll (1978), é tratado como texto fundador. Não se confirmou qual texto usa a palavra pela primeira vez nesse sentido.

Ou seja: a ideia tem uns 125 anos, e o método, menos de cinquenta. É técnica moderna, sem segredo ancestral. Uma história de origem recente, ou até inventada, não significa que a técnica não funcione.

Servitor não é sigilo, mesmo usando um

Confunde muito iniciante. A diferença:

Sigilo comum Servitor
O que se faz Faz, carrega, destrói Faz, carrega e guarda
Depois Esquece (faz parte da técnica) Mantém contato regular até a data de encerramento
Prazo Não tem Obrigatório

O prazo existe porque o contato é mantido de propósito, e contato sem data para acabar tende a virar cobrança. Para o método do sigilo em si, veja o guia Como fazer um sigilo.

Montando o primeiro, do começo ao fim

O exemplo é uma rotina de estudo.

1. A função, numa única frase

A frase segue cinco regras:

  1. Afirmativa. “Não quero mais procrastinar” é uma frase sobre procrastinação. Prefira “eu termino o que começo”.
  2. No presente. “Vou estudar” empurra para um futuro que nunca chega. “Eu estudo” é presente.
  3. Sobre você. Nada de “fulano me ajuda a estudar”.
  4. Não sobre o destino. “Eu passo no concurso” é destino. “Eu estudo todo dia” é o degrau que leva até lá.
  5. Uma única função. Com mais de uma, você não saberá qual deu resultado.

Frase do exemplo: EU ESTUDO TODO DIA.

2. O nome

Curto, fácil de lembrar e que você não confunda com outra coisa. No exemplo, Hora. Dois cuidados:

  • Evite nome de entidade de religião ou de espírito de grimório. Seria pegar carona numa egrégora que não é sua, sem saber com quem você está falando.
  • Não copie o exemplo. Se muita gente cria servitores com o mesmo nome e a mesma função, soma atenção numa coisa só, e é assim que uma egrégora se forma. Além disso, escolher o nome é parte do trabalho, e copiar tira um pouco da força. Vale o mesmo para a frase e para o sigilo: escreva a sua e desenhe o seu.

3. O sigilo

Pelo método da redução das letras: escreva a frase em maiúsculas e mantenha só a primeira ocorrência de cada letra. Em EU ESTUDO TODO DIA ficam E, U, S, T, D, O, I, A, oito letras (entre seis e doze é o ideal). Monte um desenho com elas, sobrepondo, ligando com traço contínuo ou reduzindo cada uma a uma forma simples. Trabalhe até ficar bom de olhar, porque você vai passar minutos olhando para ele. Está pronto quando você não consegue mais ler a frase no desenho: guarde e olhe de novo no dia seguinte, e a frase não deve vir de imediato. Reserve de vinte minutos a uma hora.

4. A criação

A estrutura tem cinco partes: nome, função, limite, prazo e fecho. Você pode trocar as palavras à vontade, mas mantenha as cinco.

Pouca luz, o sigilo apoiado à altura dos olhos, a uns cinquenta centímetros. Fixe o centro do desenho, deixe o olhar amolecer e respire devagar. Depois de dez a vinte minutos, o desenho começa a parecer que escorre, pulsa ou ganha profundidade. É o olho cansando de ficar parado, e também um bom sinal de que você ficou tempo suficiente. Feche os olhos, veja a imagem que ficou gravada e diga algo como:

“Seu nome é [nome]. Você existe para [função]. Você responde a mim e só a isso. No dia [data], sua tarefa termina. Assim é.”

5. O prazo

Para o primeiro, trinta dias. Escreva a data de encerramento no verso do sigilo e no caderno.

6. A alimentação

Antes de abrir o material de estudo, olhe o sigilo por uns trinta segundos, toque nele e diga: “[nome], vamos.” Só nesse momento. Não converse com ele fora do gesto combinado. Se esquecer um dia, não compense no seguinte: volte ao gesto normal e siga.

7. O encerramento

Na data marcada, ou antes se quiser parar, olhe o sigilo e diga:

“[Nome], sua tarefa terminou. Obrigado pelo trabalho. Você está dispensado e desfeito. Assim é.”

Queime o sigilo numa vasilha à prova de fogo, ou rasgue e jogue fora de casa. Anote a data e o resultado no caderno. Não reaproveite o sigilo. Se quiser continuar, crie um novo, com prazo novo.

Sinais de que algo deu errado

Encerre antes do prazo se aparecer qualquer um destes:

  • culpa ou sensação de dívida quando você esquece o gesto;
  • pensar nele fora do horário combinado, várias vezes por dia;
  • vontade de consultá-lo sobre outros assuntos;
  • sensação de estar sendo observado ou cobrado.

Se o desconforto continuar depois do encerramento, o assunto deixou de ser técnica. Converse com alguém e, se não passar, procure um psicólogo.

Limites

  • Não crie servitor para agir sobre a vontade de outra pessoa (fazer alguém ligar, gostar, ceder). O autor trata isso como uma trava prática de segurança, para o iniciante não se perder em fantasias de controle ou em frustração.
  • Se você está em crise, ou tem histórico de psicose, dissociação ou transtorno bipolar, isto não é para você, pelo menos não agora. A técnica treina a mente a tratar algo criado por você como se fosse outra pessoa, e para quem já tem dificuldade de separar a própria voz das outras esse treino costuma piorar as coisas.
  • Não crie por solidão. Servitor não substitui gente.
  • Fogo: queime o sigilo só em vasilha à prova de fogo, e nunca deixe vela acesa sem alguém acordado em casa.

Um caso: quando o servitor virou cobrança

Um dos primeiros servitores do autor tinha a tarefa de lembrá-lo de fechar o caderno de registro toda noite. Ele desenhou o sigilo, deu um nome e combinou alimentá-lo com um minuto de atenção antes de dormir, olhando o desenho colado na parede. Funcionou por algumas semanas. Depois vieram dias corridos, ele esqueceu de olhar, e toda vez que passava pelo papel sentia que devia alguma coisa a ele. Não era medo, era culpa, parecida com a de deixar de regar uma planta.

O servitor criado para manter um hábito virou cobrança, porque ele não tinha definido, na criação, quanto tempo duraria nem como acabaria. Quando fez o encerramento, a culpa passou em poucos dias. O hábito do caderno ficou. É por causa desse caso que o prazo e o encerramento estão no passo a passo.

Forma-pensamento e egrégora no Magia Prática

O livro Magia Prática trata do mesmo território sem usar a palavra servitor. No capítulo VI, “forma-pensamento” é a primeira de quatro categorias de coisas com que se trabalha: algo que você mesmo fez. Um sigilo carregado é uma forma-pensamento, “uma intenção comprimida, lançada, operando fora do seu campo de atenção”, e a diferença entre um praticante e alguém com uma preocupação recorrente é que o praticante faz de propósito e sabe encerrar. A egrégora é, no livro, uma forma mantida viva pela atenção coletiva, que se comporta como se tivesse vontade própria, e a postura recomendada diante dela é tratá-la como se tivesse agência, sem afirmar que tem: chamar pelo nome, ser claro, agradecer e despedir formalmente. É a mesma lógica do prazo e do encerramento do servitor.

Se a sua prática de servitores ou sigilos não deu o resultado esperado, o guia Por que a magia não funciona traz os dez modos de falhar e o diagnóstico em oito perguntas.

Perguntas frequentes

O que é um servitor?

Uma forma-pensamento criada de propósito para cumprir uma função específica. Tem nome, um sigilo que fica guardado, um limite, um prazo e um fecho. O contato com ele é mantido de propósito até a data de encerramento.

Qual a diferença entre servitor e sigilo?

No sigilo comum você faz, carrega, destrói e esquece: esquecer faz parte da técnica. No servitor, o sigilo fica, e você mantém contato regular com ele até o encerramento. Por isso o servitor precisa de prazo: contato sem data para acabar tende a virar cobrança.

De onde vem o servitor e o tulpa?

A ideia de pensamento com forma própria ganhou nome no Ocidente com a Teosofia, em Thought-Forms, de Annie Besant e C. W. Leadbeater (Londres, 1901). "Tulpa" vem de Alexandra David-Néel, em Mystiques et magiciens du Thibet (1929), adaptando uma palavra tibetana. Servitor como técnica, com função e sigilo, se popularizou com a magia do caos, a partir do fim dos anos 1970; o Liber Null, de Peter Carroll (1978), é tratado como texto fundador do movimento.

Quanto tempo deve durar o primeiro servitor?

Trinta dias. Escreva a data de encerramento no verso do sigilo e no caderno. Se quiser continuar depois, crie um sigilo novo com prazo novo, para que continuar seja uma decisão tomada de novo, e não inércia.

Servitor é perigoso?

Para a maioria das pessoas, é um exercício de atenção. Mas treina a mente a tratar algo criado por você como se fosse outra pessoa, o que costuma piorar as coisas em quem está em crise ou tem histórico de psicose, dissociação ou transtorno bipolar. Também não deve ser criado por solidão: servitor não substitui gente.

Capa de Magia Prática, de M. Pascal: livros antigos, vela acesa, incensário e pergaminho com rosa dos ventos sobre uma mesa de madeira.

Leia o livro

Magia Prática

"Magia Prática e o que ninguém escreve sobre ela" é um manual de ocultismo moderno brasileiro, de M. Pascal, escrito a partir de nove anos de prática quase diária e de cadernos com o que funcionou, quanto tempo levou e o que deu errado. Abre dizendo que provavelmente não é para você, não promete resultado e traz um capítulo inteiro sobre falha: dez modos de errar e um diagnóstico em oito perguntas.

Continue lendo

Mais para ler

Cartas da biblioteca

Acenda uma vela na noite de 31.

  • Na noite do centenário, uma carta só: a última sessão de Bess Houdini, contada com os documentos da época.
  • Depois, só quando sair livro novo ou achado de arquivo.
  • Escrevemos pouco. Sem promessa, sem spam.

Usamos seus dados só para avisar de lançamentos e achados da biblioteca. Não vendemos nem repassamos. Cancele quando quiser, em um clique.