Quase tudo o que circula em português sobre espelho negro é resumo de resumo. Este guia vai à fonte: um manual impresso em Boston em 1870, que estava na biblioteca de Harry Houdini e hoje está digitalizado em domínio público.
O que é
O espelho negro é uma superfície escura e polida usada para olhar fixamente até que apareçam imagens. É um objeto de adivinhação antigo, e quase sempre se apresenta como algo recente. O manual de 1870 que vamos seguir o chama de espelho magnético.
De onde vem
O próprio manual de Randolph abre a segunda parte listando antecedentes. O primeiro é a placa polida do dr. Dee, o ocultista da corte inglesa do século XVI. O segundo, o espelho de Cagliostro, contado por George Sand. O terceiro, o menino egípcio que via figuras numa poça de tinta na palma da mão, no relato do orientalista Edward Lane.
Quem escreve sobre espelho negro hoje costuma partir desses mesmos casos, sem dizer que vêm do livro de Randolph, que por sua vez os copiou de outros livros. As notas da edição brasileira identificam o que foi possível identificar.
O que Randolph propõe
Randolph, ex-médium de transe e fundador de uma ordem rosacruz, explica o espelho por uma teoria própria: ele recolheria na superfície um fluido que sai dos olhos de quem olha, e as imagens apareceriam nessa camada, e não no vidro. Descreve graus de espelho, do mais simples ao mais refinado.
O livro tem duas partes, escritas para serem lidas nessa ordem. A primeira trata da clarividência pelo mesmerismo, e a segunda, do espelho. As regras finais pressupõem o que vem antes.
As regras de leitura
São vinte e oito, e são concretas. Alguns exemplos, que o próprio livro apresenta:
| O que aparece | Como Randolph lê |
|---|---|
| Nuvens brancas | Resposta “sim” |
| Nuvens negras | Resposta “não” |
| Nuvens que sobem | Afirmam |
| Nuvens que descem | Negam |
| O que aparece à esquerda de quem olha | Real |
| O que aparece à direita | Simbólico |
As outras vinte e duas estão no livro, com o significado das cores e dos movimentos e os sinais de que a sessão acabou.
Condições
Randolph descreve quarto escuro, costas para a luz, espelho inclinado e paciência para esperar a primeira nuvem. Ele não promete nada a todo mundo: avisa, no fim do livro, que há quem tente por muito tempo sem ver coisa alguma, e aconselha quem não tem inclinação natural a não gastar tempo nem dinheiro com o espelho.
Substituto caseiro
O espelho industrial que o autor descreve não se fabrica mais. Por isso ele ensina um substituto feito com vidro e tinta preta. As instruções completas estão no livro, junto com as notas do tradutor.
Como registrar o que você vê
Na seção sobre psicometria, Randolph dá um conselho que a edição brasileira recomenda seguir: anotar as primeiras e mais fortes impressões e conferir depois se estavam certas. Com o espelho, o método é o mesmo: escreva a data, a pergunta e o que viu, antes de saber como a coisa terminou. Com o tempo, esse registro separa o que o espelho mostrou do que você queria ver.
Avisos de segurança
A edição brasileira marca estes pontos, e vale repeti-los aqui.
- Saúde mental. Se você está em crise, ou tem histórico de psicose, dissociação ou transtorno bipolar, sessões longas de olhar fixo num espelho escuro, num quarto escuro, são má ideia. O exercício é tirar imagens de um fundo sem forma, várias vezes seguidas, e isso costuma piorar as coisas para quem já tem dificuldade de separar o que vem de fora do que vem de dentro.
- Hiperventilação. Um teste que Randolph sugere é respirar depressa e com força por noventa segundos. Dá tontura e pode levar ao desmaio. Não faça em pé, nem com epilepsia, problema cardíaco ou crises de pânico.
- Ácido fluorídrico. O original manda limpar o espelho com ele. Não use: é extremamente perigoso para a pele e para os pulmões. Água com sabão e álcool bastam.
- Saúde do corpo. Randolph examinava doentes e receitava por clarividência. Não repita. Sintoma persistente vai para o médico, e sofrimento psíquico, para psicólogo ou psiquiatra.
- Vontade de terceiros. O original traz instruções para agir sobre o que outra pessoa quer, como trazer de volta um marido que se afastou. O tradutor mantém no texto, por ser edição integral, mas não pratica e não ensina. O próprio Randolph avisa que o propósito mau volta contra quem o usa.
Funciona?
Não prometemos isso. As regras de Randolph são claras o bastante para serem postas à prova, o que é raro nos manuais da época. Se o espelho mostra o que ele diz que mostra, não sabemos. Também não sabemos que não mostra. O que a edição brasileira dá é o procedimento completo, as fontes que Randolph copia sem citar e os avisos nos pontos em que seguir o texto faz mal.
Onde ler a fonte
Vidência! O Espelho Magnético é a tradução integral de Seership!, feita direto do inglês de 1870 a partir do exemplar da Coleção Harry Houdini, da Library of Congress, com 67 notas do tradutor e glossário do vocabulário do século XIX. Para saber quem era o autor, veja Paschal Beverly Randolph. Para ver como Houdini lidava com médiuns, leia Um Mágico entre os Espíritos.

