No Brasil, “espiritismo” é uma doutrina com casas, livros de referência e história própria. Em inglês, “spiritualism” costuma ser traduzido como “espiritualismo” e confundido com ela. Não são a mesma coisa, e ler um clássico do século XIX sem saber disso leva a mal-entendidos.
Espiritismo: a doutrina de Kardec
O espiritismo foi organizado por Allan Kardec, na França. Tem codificador, livros de referência e doutrina estruturada. A reencarnação é um de seus pilares.
Espiritualismo: o movimento de 1848
O spiritualism anglo-americano nasce em 31 de março de 1848, em Hydesville, no estado de Nova York, quando as irmãs Maggie e Kate Fox disseram ter se comunicado com um espírito por meio de batidas. Em 1888, Maggie confessou ao jornal New York World que as batidas eram feitas estalando articulações. Ela se retratou da confissão depois, mas o movimento já havia se espalhado pelos Estados Unidos e pela Europa.
Era feito de sessões, médiuns profissionais e fenômenos físicos: mesas que se mexiam, vozes no escuro, objetos que voavam, escrita automática, fotografia de espíritos. Nunca teve codificador nem doutrina oficial.
A diferença aparece nos livros
A diferença não é só de vocabulário. Em Escrita Automática (1896), a autora, Sara A. Underwood, rejeita a reencarnação com todas as letras. Os espíritos que escrevem pela mão dela dizem algo que surpreende quem vem de uma leitura kardecista: a sobrevivência não é garantida, e quem não desenvolveu força de alma suficiente deixa de persistir.
Em Um Mágico entre os Espíritos (1924), Houdini trata do mundo dos médiuns profissionais anglo-americanos e praticamente não menciona Kardec. Quem chega do espiritismo brasileiro vai encontrar outro mundo.
Por que isso importa para quem lê
Os livros da Biblioteca do Espelho tratam do espiritualismo anglo-americano. As apresentações de cada volume avisam logo no início. Ler sabendo disso evita esperar do texto uma doutrina que ele não tem, e permite lê-lo pelo que é: documento histórico de um movimento específico, com seus entusiastas, seus críticos e seus fraudadores.
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O livro em que a diferença fica mais clara é Escrita Automática: uma agnóstica de Chicago, cuja mão passou a escrever sozinha, registra o caso e, ao lado dele, a objeção. Para ver o outro lado, o do desmascarador, leia Um Mágico entre os Espíritos.

